O projeto do estádio próprio do Flamengo no terreno do Gasômetro, que parecia caminhar para a concretização com a aquisição da área em 2024 por R$ 170 milhões, enfrenta agora uma série de obstáculos que podem adiar significativamente o sonho da "casa própria" rubro-negra. A previsão de inauguração, que já passou de 2029 para 2036, pode ser novamente postergada, e até mesmo a viabilidade do projeto no local está sob questionamento.
Sem Pressa e com Maracanã Lucrativo:
A diretoria do Flamengo, liderada pelo presidente Luiz Eduardo Baptista (Bap), demonstra não ter pressa para iniciar as obras. A principal razão é a atual conjuntura econômica, com a taxa Selic em 15%, tornando inviável a obtenção de empréstimos vultosos. Bap calculou que um estádio de mais de 500 milhões de euros exigiria 75 milhões de euros por ano apenas em juros, o equivalente a "quase dois Lucas Paquetá". O clube estima o custo final da obra em R$ 2,66 bilhões, podendo ser reduzido para R$ 2,2 bilhões.
Além dos juros altos, a rentabilidade do Maracanã sob a gestão do Flamengo se tornou um fator decisivo. O clube conseguiu dobrar a arrecadação anual com bilheteria de 2024 para 2025 (de R$ 44,5 milhões para R$ 88,2 milhões) e elevou a margem de lucro por partida de 3% para 72%. "Tenho 19 anos para esperar e ver se preciso construir um novo estádio ou não. Já tenho meu próprio estádio por duas décadas, pois detenho a concessão do Maracanã. Não vamos abrir mão dele", declarou Bap. Para ele, comprometer o futuro do time com um estádio que não gere receita significativamente maior que o Maracanã atual seria um erro. "Toda escolha envolve uma renúncia. Se decidir construir um estádio, certamente não haverão outros Samuel Lino ou Lucas Paquetá", ponderou.
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Obstáculos Adicionais e Inesperados:
Mesmo que o cenário econômico melhore e a diretoria decida avançar, o terreno do Gasômetro apresenta complicações logísticas e históricas:
Naturgy: O Flamengo só pode iniciar as obras após o remanejamento da subestação de bombeamento de gás da Naturgy, que ocupa 55% da área. A empresa estima um prazo de quatro anos para isso, após a obtenção de um novo endereço pela Prefeitura. Em seguida, o local ainda precisará ser descontaminado.
Vestígios Históricos: Mais recentemente, sondagens no terreno revelaram vestígios de um antigo porto ou cais, possivelmente do século XVII. A descoberta foi comunicada ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que avaliará a relevância do achado. Dependendo da classificação do sítio arqueológico, os cenários variam desde a simples documentação e remoção do material, passando por uma extração cuidadosa que atrasaria o cronograma, até a preservação integral do local, o que poderia inviabilizar totalmente a construção do estádio.
O especialista Fabrício Chicca considera pouco provável a inviabilização total, mas admite que um sítio "muito importante" na área das principais estruturas do projeto teria um impacto significativo. Uma avaliação dessa magnitude, com estudos, relatórios e a decisão final dos órgãos competentes, pode levar até dois anos. A possibilidade de adaptar o projeto para incluir as ruínas como atração histórica também existe, mas a preservação do patrimônio cultural, especialmente se de alta relevância, é considerada prioritária e acima de qualquer interesse esportivo ou econômico.
Diante dos juros altos, da rentabilidade do Maracanã e dos novos desafios com o terreno, o sonho do estádio próprio do Flamengo no Gasômetro se torna cada vez mais distante e complexo, exigindo paciência da torcida e cautela da diretoria.