No futebol carioca, as fronteiras entre rivais são muitas vezes intransponíveis. Poucos são os jogadores que conseguem ser ídolos nas Laranjeiras e respeitados na Gávea. Edino Nazareth Filho, o Edinho, é uma dessas raras exceções. Conhecido mundialmente pela sua técnica refinada e liderança nata, ele desembarcou no Flamengo em 1987 já consagrado, com três Campeonatos do Mundo no currículo e o status de "Deus da Raça" no Fluminense.
A sua contratação pelo Flamengo foi um choque de mercado e uma jogada de mestre. O Rubro-Negro precisava de experiência e autoridade para a sua defesa num ano de reformulação e incertezas políticas no futebol brasileiro. Edinho não só aceitou o desafio como se tornou o pilar defensivo de uma das equipas mais lendárias da história do clube.
Este artigo revisita a trajetória de Edinho zagueiro no Flamengo, focando no seu estilo de jogo elegante, na parceria com Leandro e no papel fundamental que desempenhou na conquista do Tetracampeonato Brasileiro.
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1. A Chegada de um Gigante (1987)
Após cinco temporadas de sucesso na Udinese, de Itália (onde jogou ao lado de Zico), Edinho decidiu regressar ao Brasil. Aos 32 anos, muitos poderiam questionar a sua forma física, mas a sua classe permanecia intacta.
A sua chegada ao Flamengo em 1987 foi parte de um "pacote de estrelas" montado para a Copa União. O clube reuniu ídolos como Zico, Andrade e Leandro, e adicionou a experiência internacional de Edinho e a juventude de nomes como Bebeto, Zinho e Leonardo. Edinho chegou com a braçadeira "moral" de quem tinha sido capitão da Seleção Brasileira na Copa de 86.
2. A "Zaga de Cinema": Edinho e Leandro
Um dos maiores legados de Edinho zagueiro no Flamengo foi a parceria que formou com Leandro. Leandro, o maior lateral-direito da história do clube, já atuava como central devido a problemas nos joelhos.
Juntos, formaram o que muitos especialistas consideram a dupla de centrais mais técnica da história do futebol brasileiro.
Edinho: Tinha a força física, a impulsão e a saída de bola de um médio (posição onde também atuava). Era o "xerife" que impunha respeito e organizava a linha defensiva.
Leandro: Tinha a antecipação, a leitura de jogo genial e a qualidade de passe.
Ver Edinho e Leandro a sair a jogar era um espetáculo à parte. A bola não era "rifada"; ela saía limpa, construída desde trás, o que facilitava enormemente o trabalho do meio-campo criativo do Flamengo.
3. A Conquista da Copa União de 1987
O grande momento de Edinho com o Manto Sagrado foi, sem dúvida, o Campeonato Brasileiro de 1987 (Copa União). Naquela campanha histórica, a defesa do Flamengo foi um muro.
Edinho foi titular absoluto e uma voz de comando num balneário repleto de estrelas. Na fase final, contra Atlético-MG e Internacional, a sua experiência foi vital para segurar resultados apertados. Na finalíssima contra o Internacional no Maracanã, Edinho teve uma atuação soberba, anulando o ataque colorado e garantindo, ao lado de Zé Carlos e companhia, o 1-0 que selou o título. Levantar a taça de 87 foi a coroação de uma aposta mútua entre jogador e clube.
4. O Estilo de Jogo: O "Zagueiro-Craque"
Edinho não era um "destruidor" de jogadas comum. Ele representava a essência do defesa clássico.
Técnica: Sabia driblar na defesa, sair a jogar de cabeça erguida e lançar os avançados.
Bolas Paradas: Era um exímio cobrador de faltas (tendo marcado golos importantes assim na carreira) e penáltis, uma característica rara para um central na época.
Liderança: Falava o tempo todo, orientava o posicionamento e não deixava a equipa "dormir" em campo.
5. O Legado Curto, Mas Eterno
A passagem de Edinho pelo Flamengo durou pouco mais de um ano (1987-1988). Ele disputou cerca de 61 jogos e marcou 4 golos. Em 1988, retornou ao Fluminense e depois encerrou a carreira no Grêmio, vencendo a primeira Copa do Brasil em 1989.
Apesar do tempo curto, Edinho zagueiro no Flamengo escreveu o seu nome na história. Ele provou que a qualidade técnica e o profissionalismo estão acima de rivalidades. Para a Nação Rubro-Negra, Edinho não é lembrado como um "ex-tricolor", mas sim como o Xerife de 87, o parceiro de Leandro e um dos grandes campeões que honraram o Manto Sagrado.