Na coleção de grandes atacantes do futebol brasileiro, poucos nomes possuem o faro de gol e a categoria de Cláudio Adão. Apesar de ter se tornado um "nômade" do futebol, vestindo camisas de quase todos os grandes clubes do país, foi na Gávea que ele viveu um de seus momentos mais esplendorosos. A história de Cláudio Adão no Flamengo é a crônica de uma eficiência de um gênio da bola, época em que o Brasil primava em revelar jogadores de alto nível. Ele foi o camisa 9 que, no final da década de 70, transformou a criatividade do meio-campo de Zico e Adílio em bolas na rede, ajudando a iniciar a maior hegemonia da história do clube.
Enquanto a memória popular foca muito na "Geração de 81", é fundamental lembrar que a base daquele time campeão do mundo foi forjada alguns anos antes, especificamente entre 1978 e 1979. E, nesse período, ninguém fez mais gols com a camisa rubro-negra (exceto, claro, o Galinho) do que Cláudio Adão.
Este artigo mergulha na trajetória desse centroavante técnico, forte e decisivo, que fazia gols até de olhos fechados e marcou época com sua enorme categoria.
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1. A Chegada de um Predestinado: Substituindo Lendas
Cláudio Adão chegou ao Flamengo em 1977 com uma missão que faria qualquer jogador tremer: ele já carregava o peso de ter surgido no Santos como o "sucessor de Pelé" (uma alcunha injusta que ele carregou com dignidade). No Rio de Janeiro, o desafio não era menor. O Flamengo buscava um homem de referência para substituir o ídolo argentino Doval, que havia deixado o clube.
A torcida, exigente e apaixonada, queria gols. E Cláudio Adão no Flamengo não demorou a entregar. Diferente dos centroavantes "trombadores" da época, Adão tinha uma técnica refinada. Ele sabia sair da área, tabelar e, acima de tudo, finalizar com uma precisão cirúrgica, tanto com os pés quanto no jogo aéreo.
Sua adaptação ao estilo de jogo do time foi rápida. Ele encontrou no Flamengo um meio-campo dos sonhos, capaz de deixá-lo na cara do gol várias vezes por partida. E Cláudio Adão raramente perdoava.
2. 1978: O Ano da Virada e a Artilharia
A temporada de 1978 é um marco zero na história moderna do Flamengo. Foi o ano em que o clube, após um período de seca e vices, montou o time que dominaria o Brasil e o mundo. O gol do título daquele Campeonato Carioca, marcado pelo zagueiro Rondinelli na final contra o Vasco, é a imagem eterna. Mas aquela final só aconteceu porque Cláudio Adão carregou o piano durante todo o campeonato.
Naquele ano, Cláudio Adão no Flamengo foi uma máquina. Ele terminou como o artilheiro do Campeonato Carioca de 1978, anotando 19 gols. Foi ele quem garantiu as vitórias nos clássicos e nos jogos difíceis contra os times pequenos, mantendo o Flamengo na briga até o momento decisivo.
Aquele título tirou um peso gigantesco das costas da geração de Zico. E Adão foi o ponta de lança dessa libertação, provando que era o parceiro ideal para o Galinho.
3. O Parceiro Ideal de Zico e a "Geração de Ouro"
Muitos atacantes tiveram a honra de jogar ao lado de Zico, mas poucos tiveram a sintonia que Cláudio Adão demonstrou. A dinâmica era perfeita: Zico atraía a marcação e desmontava as defesas com passes geniais; Adão, com sua movimentação inteligente e explosão física, atacava os espaços vazios para finalizar.
Além da técnica, um fator diferenciava Adão: seu preparo físico. Ele era um atleta à frente de seu tempo. Praticante de futevôlei e treinos na areia fofa das praias cariocas, ele tinha uma impulsão e uma força nas pernas que o tornavam letal na arrancada curta e no cabeceio.
Em 1979, o ano em que o Flamengo conquistou dois Campeonatos Cariocas (o Especial e o Estadual), Adão continuou sendo uma peça fundamental. Ele fazia parte daquele ataque avassalador que triturava os adversários. Sua média de gols pelo clube é prova disso: em sua passagem, ele manteve uma regularidade impressionante, balançando as redes em média a cada dois jogos.
4. A Saída e o Legado do Artilheiro
A passagem de Cláudio Adão no Flamengo encerrou-se no início da década de 80, quando ele sofreu uma grave lesão e, posteriormente, acabou sendo negociado (abrindo espaço para a ascensão de Nunes, que seria o 9 do Mundial). Adão seguiu sua carreira de "cigano", jogando e sendo artilheiro no Botafogo, Vasco, Fluminense, Corinthians e muitos outros.
No entanto, seus números na Gávea são incontestáveis. Foram 154 jogos e 82 gols marcados. Uma média de 0,53 gols por partida, um número de respeito para qualquer atacante de elite.
O 9 que Começou a Dinastia
Cláudio Adão pode não ter estado na foto do título Mundial de Tóquio em 1981, mas a sua contribuição para que o Flamengo chegasse até lá é inegável. Ele foi o artilheiro que devolveu a hegemonia estadual ao clube em 1978 e 1979, restaurando a confiança e a mentalidade vencedora do elenco.
Para quem viu jogar, Cláudio Adão no Flamengo foi sinônimo de elegância e letalidade. Ele foi o artilheiro necessário no momento exato, a ponte entre um time promissor e uma equipe lendária. Seu nome está gravado na história como um dos grandes goleadores que honraram o Manto Sagrado.