No futebol, a figura do defesa central é, por norma, associada à discrição, à seriedade e à destruição de jogadas. Contudo, de tempos a tempos, surge um jogador que rompe com todos os paradigmas. Júnior Baiano no Flamengo foi exatamente esse tipo de fenómeno. Ele não se limitava a defender; ele atacava, marcava golos, intimidava os adversários e protagonizava entrevistas que entravam para a história.
Raimundo Ferreira Ramos Júnior, conhecido mundialmente como Júnior Baiano, é uma das figuras mais complexas e carismáticas que já vestiram o "Manto Sagrado". Com um físico imponente e uma técnica surpreendente para a sua posição, ele foi um dos pilares de grandes conquistas, mas também o protagonista de momentos inusitados que o transformaram numa lenda "folclórica".
Este artigo revisita a trajetória deste "zagueiro-artilheiro", desde a sua ascensão meteórica na equipa campeã de 1992 até à sua consagração como um dos maiores personagens do futebol brasileiro.
1. A Ascensão em 1992: O Menino na Defesa de Mestres
Para compreender a dimensão de Júnior Baiano, precisamos regressar ao início da década de 90. O Flamengo vivia um momento de transição. A "Geração Zico" já tinha passado o testemunho e o clube apostava numa mistura de veteranos consagrados com jovens promessas da formação (a "base").
Foi neste cenário que Júnior Baiano emergiu. Na histórica campanha do Campeonato Brasileiro de 1992, ele formou uma dupla de centrais sólida com Wilson Gottardo. Enquanto o maestro Júnior comandava o meio-campo (no seu papel de "Vovô Garoto"), Júnior Baiano trazia a vitalidade e a imposição física na retaguarda.
Na final contra o rival Botafogo, um dos jogos mais importantes da história do Brasileirão, Júnior Baiano não se escondeu. Foi dele um dos golos no primeiro jogo da decisão (vitória por 3-0), um golo que demonstrou o seu faro ofensivo e ajudou a selar o pentacampeonato nacional do clube. Ali, nascia um ídolo.
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2. O Estilo "Bate e Joga": Força Bruta e Técnica Refinada
Uma das maiores injustiças cometidas contra a memória de Júnior Baiano no Flamengo é reduzi-lo apenas a um defesa violento. É facto que ele era duro, por vezes excessivamente viril nas divididas, o que lhe rendeu muitos cartões e a fama de "mauzão". No entanto, essa é apenas metade da história.
Júnior Baiano possuía uma técnica acima da média para um defesa da sua época. Ele tinha:
Saída de Bola: Tinha qualidade no passe e não tinha medo de sair a jogar, muitas vezes arrancando com a bola dominada até ao ataque.
O Remate Canhão: A sua potência de remate era lendária. Fosse em livres diretos de longa distância ou em grandes penalidades, quando Júnior Baiano batia na bola, os guarda-redes tremiam.
Presença Aérea: Com a sua estatura elevada, era uma arma letal nas bolas paradas ofensivas e defensivas.
Essa dualidade – capaz de um corte ríspido num momento e de um passe de 40 metros no outro – fazia dele um jogador único e essencial para o esquema tático do Flamengo.
3. O Defesa Artilheiro: Números de Avançado
Ao longo das suas passagens pelo Flamengo (ele teve quatro passagens distintas: 1989-1993, 1996-1998, 2004-2005), Júnior Baiano acumulou um número de golos impressionante. Ele é, até hoje, o defesa com mais golos na história do Flamengo, com 33 tentos anotados em jogos oficiais.
Esta estatística é reveladora. Num clube que teve defesas lendários como Mozer, Rondinelli e Aldair, o facto de Júnior Baiano liderar a lista de artilheiros da posição cimenta o seu lugar na história. Ele não era apenas um defensor que subia nos cantos; era uma opção ofensiva real, muitas vezes cobrando livres e penáltis com uma frieza que faltava a muitos avançados.
4. O Lado "Folclórico": Carisma e Sinceridade
A relação da Nação Rubro-Negra com Júnior Baiano transcendia as quatro linhas devido à sua personalidade. Ele era o que no Brasil se chama de "sincerão". As suas entrevistas pós-jogo eram imperdíveis, repletas de frases espontâneas e, por vezes, desconcertantes.
A sua imagem oscilava entre o vilão e o herói. Ele podia cometer um erro infantil num lance e, minutos depois, marcar um golo decisivo e sair a festejar com a sua passada larga característica. Esse pacote completo de entretenimento e paixão fez dele um dos jogadores mais queridos pela massa adepta, que via nele um representante da sua própria raça e irreverência.
5. O Regresso e o Legado na Gávea
Júnior Baiano rodou o mundo, jogou na Europa, disputou (e foi titular na final) o Campeonato do Mundo de 1998 pela Seleção Brasileira, mas o seu coração sempre teve uma morada: a Gávea.
O seu regresso em 2004 foi marcado pela experiência. Já veterano, ele voltou para ajudar o clube num momento delicado, trazendo liderança ao balneário. Conquistou títulos estaduais (Campeonato Carioca de 2004) e foi fundamental para manter a competitividade da equipa.
Títulos e Feitos de Júnior Baiano no Flamengo:
1x Campeonato Brasileiro (1992)
1x Copa do Brasil (1990)
2x Campeonato Carioca (1991, 2004)
Maior Defesa Artilheiro da História do Clube (33 golos)
Um Gigante da História Rubro-Negra
A história de Júnior Baiano no Flamengo é a prova de que o futebol não é feito apenas de atletas perfeitos, mas de personalidades marcantes. Ele errava, algumas vezes violento, acertava, tinha grande talento, batia e marcava, mas nunca passava despercebido.
Para a história do Flamengo, ele permanece como o símbolo de uma era onde o futebol era mais "raiz", mais físico e, inegavelmente, mais divertido. Júnior Baiano foi o defesa que sabia ser mau quando necessário, mas que tinha talento suficiente para decidir campeonatos com os pés. Um verdadeiro ícone, eterno nas memórias do Maracanã.