Iranildo Chuchu: A História do Drible que Encantou e Frustrou o Flamengo

 Como os Flamenguistas mais antigos bem se lembram, os anos 90 foram anos sofridos, o Flamengo vivia uma das eras mais turbulentas e financeiramente caóticas de sua história. A geração de Zico, o Rei Arthur, com Adílio, Nunes, Leandro Júnior e outros era uma memória distante, e o time até que era bom, mas muitas vezes só no papel, afinal, trabalhador que não recebe não rende. A Nação Rubro-Negra, carente de ídolos e de mágica, buscava desesperadamente por qualquer fagulha de alegria. Foi nesse cenário de terra arrasada que surgiu um herói improvável: um ponta-esquerda franzino, veloz e com um repertório de dribles que parecia saído das peladas de rua. Seu nome era Iranildo Honório da Silva, mas ele jamais seria conhecido apenas por isso. Ele era, para o bem e para o mal, "Chuchu".

A história de Iranildo no Flamengo não é sobre grandes títulos como protagonista ou estatísticas impressionantes. É um capítulo folclórico, um estudo sobre a relação de amor e ódio entre a arquibancada e o talento puro. Ele é o símbolo do drible pelo drible, um jogador que representava a esperança do espetáculo, mesmo quando o resultado raramente vinha.



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1. O Contexto: Alegria em Meio ao Caos

Iranildo chegou ao Flamengo em 1996, vindo do Madureira. O clube ainda lambia as feridas do fracasso do "ataque dos sonhos" de 1995 (Romário, Sávio e Edmundo) e vivia uma crise institucional e financeira sem precedentes. Os salários atrasavam, os times eram montados às pressas e a pressão sobre qualquer jogador que vestia o Manto Sagrado era colossal.

Nesse ambiente, o torcedor não pedia mais o futebol-arte de Zico; ele pedia o mínimo de raça e, se possível, um lampejo de genialidade. Iranildo ofereceu exatamente isso. Ele não era um "Prata da Casa" clássico, lapidado na Gávea, mas sim uma aposta que rapidamente caiu nas graças da torcida.

Seu estilo de jogo era elétrico. Dribles curtos, mudanças de direção em alta velocidade e uma predileção pelo "drible da vaca" (o tapa na frente e a corrida por trás do adversário) que fazia o Maracanã se levantar. Em um time burocrático, Iranildo era o entretenimento.


2. O Apelido de Duplo Fio: O Nascimento do "Chuchu"

O apelido que definiria sua carreira é uma obra-prima da ironia do futebol brasileiro e tem um autor de peso: Romário. O "Baixinho", rei do vestiário e mestre das frases de efeito, observava o colega de time com um olhar que misturava admiração e crítica.

O apelido foi dissecado à exaustão na época

"Chuchu": Aqui mora a genialidade e a malandragem, tipicas de Romário. O chuchu é um legume conhecido por ser aguado, sem sabor, sem "sustância".

A mensagem de Romário, que a imprensa e a torcida rapidamente absorveram, era clara: Iranildo era um jogador que "só tinha o drible". Ele era um "jogador de treino" — encantava quando a pressão era baixa, mas "amarelava" na hora do jogo, sumindo nas decisões, errando o último passe ou a finalização. Era pura forma, pouco conteúdo.

O apelido Iranildo Chuchu Beleza pegou como fogo. Deixou de ser uma brincadeira interna e virou sua identidade nacional. Infelizmente para ele, era um rótulo que carregava um julgamento embutido.


3. A Eterna Luta Contra a Irregularidade

A carreira de Iranildo no Flamengo foi a personificação da irregularidade. Ele era o clássico jogador de "flashes". A torcida vivia um dilema em relação a ele, muitas vezes na mesma partida:

  1. O Encantamento: Iranildo recebia a bola na ponta esquerda. O estádio prendia a respiração. Ele partia para cima do lateral, dava um corte seco, deixava o primeiro no chão, aplicava um drible da vaca no zagueiro...

  2. A Frustração: ...e então, após fazer o mais difícil, ele errava o cruzamento, chutava em cima do goleiro ou tentava mais um drible desnecessário e perdia a bola.

A arquibancada explodia em um misto de aplauso pelo drible e vaia pela jogada perdida. Iranildo era capaz de levantar 60 mil pessoas e, no segundo seguinte, causar uma fúria coletiva. Ele foi parte importante do elenco que conquistou o Campeonato Carioca Invicto de 1996, muitas vezes entrando no segundo tempo para "incendiar" o jogo, mas nunca conseguiu se firmar como o líder técnico ou o protagonista que seu talento sugeria.

Ele sofreu da mesma "Síndrome do Novo Zico" que discutimos sobre Pintinho, embora de forma diferente. Iranildo não era cotado para ser o "cérebro" como Pintinho, mas era cotado para ser o "gênio" do drible, o novo Sávio ou o novo ponta que traria alegria. A pressão por ser a solução mágica em um time falido era simplesmente grande demais.


4. O "Ídolo Cult" e o Fim do Ciclo

Diferente de Zico (um Deus) ou de Pintinho (uma lenda melancólica), Iranildo se tornou um "ídolo cult". É um personagem folclórico. A torcida o amava pela intenção. Ele representava o futebol moleque, a "ressaca" da geração de ouro dos anos 80. Ele era a prova viva de que o talento ainda nascia no Brasil, mesmo que viesse com defeitos de fábrica (ou, no caso, com a "falta de sustância" do chuchu).

No entanto, a relação de amor e ódio e a pecha de "jogador de treino" se tornaram insustentáveis. A irregularidade crônica e a pressão da mídia e da torcida minaram sua confiança. Em 1998, ele foi negociado com o Botafogo, um rival, o que na época foi visto como um alívio para ambas as partes.

Curiosamente, no Botafogo, com menos pressão, ele teve ótimos momentos, sendo carinhosamente rebatizado de "Xuxu Beleza" pela torcida alvinegra.


5. O Legado do Drible pelo Drible

A carreira pós-Flamengo de Iranildo foi longa e vitoriosa em centros menores. Ele se tornou um dos maiores ídolos da história do Brasiliense, onde foi multicampeão estadual e peça-chave na surpreendente campanha do título da Copa do Brasil de 2002. Isso prova que o talento era real e que o "Chuchu" tinha, sim, "sustância" — talvez apenas não a necessária para suportar o peso de um Flamengo em crise.

Para a história do Flamengo, Iranildo Chuchu permanece como um personagem folclórico. Ele é a memória de um tempo difícil, onde um drible era, por vezes, a única alegria da semana. Ele não foi um gênio, mas foi um artista. E sua história é o lembrete de como um apelido, especialmente um vindo do Baixinho Romário, pode ser tão poderoso a ponto de definir e, infelizmente, limitar uma carreira inteira.

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