Eu me lembro perfeitamente dessa época. Ser flamenguista no final dos anos 90 era um teste de paciência, contas atrasadas, salários de jogadores e funcionários levavam muitas vezes, 90 dias para serem pagos, pois é o mês algumas vezes tinha 90 dias, às vezes mais. A gente ia ao Maracanã (ou ligava a televisão) sem saber o que esperar. O time podia fazer um jogo genial e ser goleado na semana seguinte. E o Beto era exatamente isso. Apesar disto, eu gostava do Beto, chamado por alguns de "Beto Cachaça" devido ao seu amor pela noite. Mas isso para mim não importava, o que importava era seu talento e a dedicação que ele entregava em campo.
A história de Beto no Flamengo é um roteiro complexo sobre o que "poderia ter sido". Ele não foi uma promessa que não vingou (como Pintinho) ou um driblador irregular (como Iranildo). Beto já era um craque consagrado, com passagens pela Seleção Brasileira e pelo futebol europeu.
Sua batalha, no entanto, algumas vezes, não era contra os zagueiros, mas contra a boemia, contra a noite do Rio de Janeiro (ser atleta no Rio não é para qualquer um) e, em última análise, contra seu próprio potencial. No entanto, mesmo em meio à sua luta pessoal, Beto foi o protagonista de um dos momentos mais cruciais da história recente do clube: o gol que permitiu a mística final de Petkovic em 2001.
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1. O Craque Consagrado: Quem Era Beto?
Antes de mergulhar no folclore, é preciso estabelecer o nível de talento de quem estamos falando. Beto não era um jogador comum. Revelado pelo Botafogo (onde já era ídolo), ele explodiu no Grêmio e foi vendido para o Napoli, da Itália, no auge da Serie A, a liga mais forte do mundo na época.
Ele era um "camisa 8" clássico que hoje seria chamado de box-to-box. Tinha uma qualidade de passe espetacular, tanto curto quanto em longos lançamentos (as famosas "viradas de jogo"), além de um chute potente e uma precisão mortal em cobranças de falta. Seu talento era tão evidente que ele foi convocado e disputou a Copa América de 1995 pela Seleção Brasileira.
Quando o Flamengo o contratou pela primeira vez, em 1998, estava trazendo um jogador de nível internacional, no auge de sua forma física (em tese), para ser o maestro do time.
2. O Apelido e a Batalha contra a Noite Carioca
A primeira passagem de Beto pelo Flamengo (1998-1999) foi exatamente o que se esperava: flashes de genialidade absoluta em campo, seguidos por longos períodos de ausência, forma física questionável e manchetes de jornal sobre suas "noitadas".
Foi aí que o apelido "Beto Cachaça" se consolidou de forma impiedosa. O Rio de Janeiro, com sua noite vibrante, foi um adversário que Beto teve dificuldade em vencer. Ele se juntou a outros ícones da boemia rubro-negra, como Romário, mas havia uma diferença crucial: Romário, mesmo saindo, entregava uma média de gols absurda; a dependência física do meio-campista Beto tornava suas escapadas muito mais prejudiciais ao seu rendimento.
A torcida vivia um dilema. Em um domingo, Beto "destruía" o jogo, com passes de 40 metros que deixavam o atacante na cara do gol. Na quarta-feira seguinte, parecia irreconhecível, lento e desinteressado. Essa irregularidade, fruto direto de sua indisciplina fora de campo, minou sua primeira passagem. Ele acabou saindo, mas a história de Beto Cachaça no Flamengo estava longe de terminar.
3. O Retorno para a Glória: O Herói Esquecido de 2001
Após uma breve passagem pelo Vasco (o que aumentou a desconfiança de parte da torcida), Beto retornou ao Flamengo em 2000 para sua segunda e mais memorável passagem. Ele estava em um time que contava com outros talentos "redimidos", como Edílson e o sérvio Petkovic. E foi na final do Campeonato Carioca de 2001 que Beto escreveria seu nome na história.
Aquela final é, talvez, a mais famosa da história do Carioca, mas 99% da fama se deve ao gol de falta de Petkovic no Jogo 3. O que a maioria se esquece — ou não sabe — é que o Tri-Hexa do Vasco não morreu ali. Ele morreu uma semana antes, graças a Beto.
O Contexto da Final: A final era uma melhor de três jogos contra o supertime do Vasco, que era o atual campeão da Mercosul e Brasileiro, e contava com estrelas como Romário, Juninho Paulista, Euller e Viola.
Jogo 1: O Vasco venceu o Flamengo por 2 a 1.
Jogo 2: O Flamengo precisava vencer de qualquer maneira para forçar o terceiro jogo. O Vasco, com a vantagem do empate no placar agregado, abriu 1 a 0, gol de Viola.
A situação era dramática. O Flamengo estava sendo derrotado, o título indo embora, e o Vasco, com seu banco de reservas já em clima de festa, administrava o jogo.
4. O Gol que Salvou o Tri: A Obra-Prima de Beto
Com o cronômetro correndo e o desespero tomando conta, o Flamengo teve uma falta na intermediária. Era longe, mas frontal. Petkovic, o batedor oficial, estava em campo, mas foi Beto quem ajeitou a bola com uma confiança que parecia alheia ao caos.
O que se viu foi a tradução de seu talento puro. Beto acertou um chute seco, violento e com uma curva perfeita. A bola viajou como um foguete e morreu no ângulo do goleiro Hélton, que sequer se moveu. Um golaço. Flamengo 1 a 1 Vasco.
Aquele gol foi uma injeção de adrenalina. Ele não apenas empatou o jogo; ele quebrou a moral do Vasco, que já se sentia campeão. O time rubro-negro sentiu o sangue, foi para cima e, pouco depois, Edílson "Capetinha" marcou o gol da virada: 2 a 1 para o Flamengo.
Aquele gol de falta de Beto foi o gol da sobrevida. Sem ele, o terceiro jogo não teria acontecido. Sem ele, o gol de Petkovic no dia 27 de maio de 2001 não teria existido.
O destino foi poético. Na terceira e decisiva partida, Beto foi expulso no segundo tempo. Ele assistiu do vestiário ao gol que seu talento permitiu: a falta mítica de Petkovic, aos 43 minutos, que deu o tricampeonato ao Flamengo.
5. Beto deixou um legado de raça e amor pelo Flamengo
Beto deixou o Flamengo logo após aquela conquista, partindo para o Fluminense. Sua carreira continuou por diversos clubes no Brasil e no exterior, mas sua passagem pela Gávea foi a que melhor o definiu.
Ele não foi um ídolo consensual. Para muitos, o apelido "Beto Cachaça" define sua carreira como um talento desperdiçado, um gênio que preferiu a noite à glória. Para outros, ele é a prova de que o futebol é feito por humanos imperfeitos, e que até mesmo o mais boêmio dos craques pode ter seu momento de redenção eterna.
Diferente de Pintinho ou Iranildo, Beto não foi uma promessa. Ele foi um craque que, apesar de si mesmo, entregou um dos gols mais importantes da história moderna do clube. Ele foi o herói improvável, o coadjuvante de luxo na maior cena de Petkovic, o homem que salvou o Flamengo da derrota e permitiu que a mística do tricampeonato se tornasse realidade.