A história do Flamengo é repleta de heróis improváveis, mas nenhum roteiro de cinema supera a vida de Modesto Bria. Ele foi o gringo que chegou num "sequestro aéreo" para dominar o meio-campo e, anos depois, usou seu olho clínico para moldar a maior geração da história do clube.
Muitos torcedores lembram dele apenas como o "descobridor do Zico". Mas reduzir Bria a isso é pouco. Ele foi um gigante em campo nos anos 40 e um visionário fora dele nos anos 60 e 70.
Neste artigo, vamos honrar a memória desse paraguaio casca-grossa que, se não tivesse existido, talvez a Era de Ouro do Flamengo nunca tivesse acontecido.
1. O "Sequestro" de Ary Barroso (1943)
A chegada de Bria ao Rio de Janeiro é uma lenda por si só. Em 1943, o Flamengo precisava desesperadamente de um centromédio (o volante da época) raçudo. Ary Barroso, o lendário compositor de "Aquarela do Brasil" e rubro-negro fanático, não esperou a diretoria agir.
Ary alugou um "teco-teco" (um monomotor precário) e voou até Assunção, no Paraguai. Lá, convenceu Bria a embarcar numa viagem perigosa de volta ao Rio. Bria contava que rezou a viagem inteira com medo do avião cair, mas ao pousar na Cidade Maravilhosa, o medo virou amor. O Flamengo ganhava ali um guerreiro.
Leitura Recomendada:
Júnior Baiano no Flamengo: O Baiano é mau pega um pega geral
Nossos 10: A História da Inesquecível e Dolorosa Tragédia do Ninho do Urubu
Flamengo : "Em Dezembro de 81" - A História do Canto que Narra Nossas Maiores Glórias
2. O Pilar do Primeiro Tricampeonato
Em campo, Bria não era de enfeitar. Ele formou a histórica linha média "Biguá, Bria e Jaime". Sua função era clara: morder, marcar e correr por três.
Com sua raça tipicamente paraguaia, ele caiu nas graças da torcida imediatamente. Foi peça fundamental na engrenagem do Primeiro Tricampeonato Carioca (1942-43-44). Enquanto o gênio Zizinho desenhava na frente, Bria garantia a segurança atrás. Foram mais de 300 jogos de entrega absoluta ao Manto Sagrado.
3. O Olho de Lince: O Homem que Viu o Futuro
Se a carreira de jogador já o faria ídolo, a carreira de técnico da base o transformou em lenda. Bria tinha um dom raro: enxergar talento onde ninguém mais via.
O Caso Zico: Em 1967, o radialista Celso Garcia levou um menino franzino e magricelo para a Gávea. A maioria dos treinadores rejeitaria o garoto pela falta de físico. Bria não. Ele viu o menino tocar na bola e sentenciou: "Esse fica. O físico a gente ganha, o talento ele já tem." Bria bancou Zico contra tudo e todos.
A Invenção de Mozer: O zagueiro Mozer, campeão do mundo em 81, chegou ao clube querendo ser centroavante. Bria olhou para a força física e a impulsão do garoto e disse: "Você não é atacante, você é zagueiro". Uma mudança de posição que deu ao Flamengo um dos maiores defensores da história.
O Maestro Júnior: Bria também foi decisivo ao trazer Júnior do futebol de areia para o campo, lapidando a técnica do "Capacete".
Conclusão: O Legado Eterno de "Cachito"
Modesto Bria nos deixou em 1996, mas seu DNA está em cada taça levantada por Zico, Júnior e Mozer.
Vamos fazer um exercício de imaginação: sem a viagem maluca de Ary Barroso e sem o olhar clínico de Bria, talvez Zico tivesse sido dispensado por ser "magro demais". A história do Flamengo seria drasticamente diferente.
Bria foi o paraguaio mais carioca de todos os tempos. Ele não apenas jogou pelo Flamengo; ele garantiu o futuro do Flamengo. Respeito máximo ao nosso eterno "Cachito".
E você, conhecia a história da chegada de Bria no teco-teco? Deixe seu comentário!