No futebol moderno, nos acostumamos com a figura do volante "pitbull" — aquele jogador que só serve para dar pancada, destruir jogadas e entregar a bola de lado. Mas na década de 50, o Flamengo mostrou ao Brasil que a camisa 5 poderia ser vestida por um lorde.
José Mendonça dos Santos, o nosso eterno Dequinha, era a antítese da violência. Ele entrava em campo e parecia não sujar o calção. Enquanto os adversários suavam e corriam atrás da bola, Dequinha fazia a bola correr por ele.
Vindo do Rio Grande do Norte, ele chegou à Gávea não apenas para marcar, mas para reger. Neste artigo, relembramos o "Monstro Sagrado" que provou que um volante pode (e deve) jogar de cabeça erguida.
A Classe que Vinha do Nordeste
Dequinha desembarcou no Rio de Janeiro vindo do ABC e do América-PE, trazendo na bagagem um estilo de jogo que o carioca não estava acostumado a ver na posição de "centro-médio".
Análise do Estilo: Dequinha não era um "cão de guarda". Ele era um enxadrista. Sua principal característica era o desarme limpo, sem falta. Ele roubava a bola e, no mesmo movimento, já iniciava o contra-ataque com um passe milimétrico. Ele ditava o ritmo. Se o time precisava acalmar, a bola passava por ele. Se precisava acelerar, ele lançava. Era a elegância vestida de vermelho e preto.
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O Motor do Segundo Tricampeonato (1953-54-55)
É impossível falar das glórias do Flamengo sem citar o Segundo Tricampeonato Carioca. E aquele time lendário funcionava porque Dequinha era o equilíbrio.
Imagine um esquadrão com a criatividade de Rubens, a velocidade de Joel e a finalização de Evaristo de Macedo e Índio. Para que esses craques brilhassem na frente, alguém precisava garantir a segurança atrás com inteligência. Esse alguém era Dequinha.
Ele liderou o meio-campo numa das eras mais dominantes da história do clube. Sua liderança era técnica e moral. Não gritava, orientava. Não batia, desarmava. Foi capitão e referência absoluta, jogando com uma regularidade impressionante.
O Legado: O Pai dos Volantes Modernos
Se anos depois tivemos Andrade desfilando categoria em 1981, ou se hoje admiramos volantes que sabem sair jogando, devemos agradecer a Dequinha. Ele foi o pioneiro.
Ele mostrou que a posição de volante não é lugar para "perna de pau". Pelo contrário, é o lugar onde o jogo nasce. Dequinha carregou o piano para o time tocar música, mas de vez em quando, ele também tocava violino.
Conclusão
Dequinha nos deixou em 1997, mas sua aula de futebol permanece. Em tempos de futebol físico e correria, lembrar dele é lembrar que o Flamengo tem no seu DNA o futebol bem jogado. Ele foi, sem dúvida, o volante mais elegante que já pisou no gramado do Maracanã.
E para você, qual volante da história recente do Flamengo mais se assemelha à classe de Dequinha? Gerson? Thiago Maia? Deixe sua opinião nos comentários!