O Divino Mestre: Por Que Domingos da Guia Foi Muito Maior que Qualquer Zagueiro Moderno

Hoje em dia, elogiamos zagueiro que "chega junto", que dá carrinho e joga a bola para o mato. Mas houve um tempo em que a área do Flamengo era um salão de baile, e o dono da festa vestia a camisa 3 (ou a 2, dependendo da época).

Domingos da Guia não jogava futebol; ele desfilava. Com ele, a conversa era outra. Ele não desarmava o atacante; ele desmoralizava. Ele tirava a bola com uma classe tão irritante e superior que o adversário ficava até sem graça de tentar de novo.

A passagem de Domingos pelo Flamengo (1936-1943) foi um divisor de águas na história do esporte. Antes dele, zagueiro era sinônimo de força bruta. Depois dele, virou sinônimo de arte. Neste artigo, vamos entender por que esse carioca de Bangu é considerado por muitos — inclusive pelo próprio filho, o craque Ademir da Guia — como a maior divindade defensiva da história.

1. "Divino Mestre": Um Apelido Conquistado na Terra dos Zagueiros

Quando o Flamengo contratou Domingos em 1936, ele já era uma celebridade internacional. Ele havia sido campeão e ídolo na Argentina (Boca Juniors) e no Uruguai (Nacional).

O Peso do Apelido: Foi no Uruguai, terra de zagueiros duros e viris, que ele ganhou a alcunha de "Divino Mestre". Os uruguaios ficaram abismados. Eles nunca tinham visto alguém defender com tanta calma. Domingos parecia flutuar. Ele lia o jogo antes de todo mundo (o famoso "tempo de bola"). Enquanto os outros corriam desesperados, Domingos estava lá, parado, de peito estufado, esperando a bola chegar nele.

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2. A "Domingada": Teste para Cardíaco

Domingos tinha uma marca registrada que hoje faria qualquer técnico moderno ter um ataque de nervos no banco de reservas: a famosa "Domingada".

O lance era o seguinte: ele recebia a bola na defesa, cercado por dois ou três atacantes famintos pressionando a saída. O que qualquer zagueiro normal faria? O "bico" para a lateral. O que Domingos fazia? Driblava todo mundo. Dentro da pequena área!

Ele saía jogando curto, com dribles desconcertantes e frieza cirúrgica, e entregava a bola redonda no meio-campo. A torcida do Flamengo prendia a respiração pelo risco, mas logo em seguida o estádio explodia em aplausos. Ele provou que a defesa também podia dar show.

3. O Fim do Jejum e a Base do Tricampeonato

Não era só estética; era eficiência. Domingos foi a rocha da defesa rubro-negra por sete anos. Foi ele o pilar do time campeão carioca de 1939, que encerrou um jejum doloroso de 12 anos sem títulos estaduais.

Imagine o nível daquele time: Leônidas da Silva resolvendo na frente e Domingos da Guia garantindo atrás. Era covardia com os rivais. Ele ainda levantou as taças de 1942 e 1943. Embora tenha saído antes do tri definitivo em 1944, a mentalidade vencedora daquele elenco foi forjada por ele.

4. O Pai do Craque

As gerações mais novas costumam dizer: "Ah, o Domingos é o pai do Ademir da Guia (ídolo do Palmeiras)". Mas a verdade histórica é o inverso: o Ademir, com toda a sua genialidade, é que é o filho do Domingos.

A elegância genética vem do pai. Domingos foi a prova de que a malandragem carioca e a técnica refinada podiam jogar na última linha de defesa. Ele antecipou em 80 anos o conceito de "zagueiro construtor" que hoje vale milhões na Europa.

Conclusão

Domingos da Guia faleceu em 2000, mas quem viu, nunca esqueceu. Se hoje exigimos que o zagueiro do Flamengo saiba sair jogando e não apenas dar chutão, a "culpa" é dele, que elevou o padrão para o nível divino.

Se ele jogasse hoje, com essa categoria e essa frieza, não haveria multa rescisória capaz de pagá-lo. Tivemos a honra de ter o melhor professor de defesa da história vestindo o Manto.

E para você, qual foi o maior zagueiro da história do Flamengo depois de Domingos? Mozer, Rondinelli, Aldair ou Juan? Deixe seu voto nos comentários!

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