Quem entra hoje no "Novo Maracanã", com as suas cadeiras almofadadas, zonas VIP e ar condicionado nos camarotes, dificilmente consegue visualizar como era alegre o nosso Maraca, o que existia ali antes das reformas para o Mundial de 2014. Ali, bem junto ao relvado, onde hoje existem assentos caros, existia um território divertido, folclórico e apaixonante: a Geral. E os seus torcedores, os Geraldinos, foram durante décadas a alma viva do Clube de Regatas do Flamengo.
A história do Flamengo confunde-se com a história deste setor. Se a massa adepta rubro-negra é a maior do mundo, deve-o muito a esse espaço democrático onde o bilhete custava "trocos" e onde o povo mais humilde, no sentido mais puro da palavra, podia ver os nossos craques de perto.
Neste artigo, vamos recordar a era dos Geraldinos, o folclore, a festa e a tristeza do fim de uma cultura que definia o futebol carioca e que nos deixa muitas saudades.
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1. O que era a "Geral"? O Território Livre
A Geral era o anel inferior do Maracanã. Não havia cadeiras, nem degraus altos para sentar. Era um plano inclinado de betão puro, separado do campo apenas por um fosso. Ali, assistia-se ao jogo de pé.
Era o lugar mais barato do estádio. Por um preço simbólico, qualquer trabalhador, estudante ou desempregado podia entrar. Isso tornava a Geral o setor mais democrático do futebol mundial. Ali misturavam-se todas as raças, credos e histórias, unidos apenas pela camisola do Flamengo. Era quente, apertado e cheirava a suor e cerveja, mas tinha uma energia elétrica que, dizem os antigos jogadores, se sentia mais forte no relvado do que a vinda das bancadas superiores.
2. Quem eram os Geraldinos? O Folclore do Futebol
O "Geraldino" era uma figura sociológica única. Como o jogo era visto de um ângulo muito baixo (quase ao nível do relvado), a visão tática da partida era péssima. Por isso, o Geraldino não ia lá apenas para analisar o 4-4-2 ou a linha de impedimento. Ele ia para viver o Flamengo.
Foi ali que nasceu o folclore do Maracanã. Figuras lendárias habitavam aquele cimento:
O "Pó de Arroz": Adeptos que atiravam talco para o ar.
O "Homem do Rádio": Aquele que colava o rádio de pilhas gigante ao ouvido e narrava o jogo para quem estava à volta.
As Fantasias: Havia adeptos vestidos de super-heróis, de noivas, ou até com roupas feitas de jornais.
O Geraldino era o bobo da corte e o rei da festa ao mesmo tempo. Ele interagia com os jogadores. Zico cansou-se de dizer que, ao bater um canto, ouvia os pedidos, as orações e as piadas dos Geraldinos que estavam a metros de distância.
3. A Simbiose: O Flamengo é o Povo
A identidade do Flamengo como "Clube do Povo" solidificou-se no cimento da Geral. Enquanto os outros clubes do Rio de Janeiro tinham raízes mais aristocráticas ou de colónias específicas, o Flamengo abraçou a massa que enchia a Geral.
Para o Flamengo, os Geraldinos eram o termómetro. Se a Geral "empurrasse", o time corria mais. Se a Geral vaiava, o time tremia, não apenas o time, já vi adversários sentirem o peso do grito que vinha do setor. Jogadores como Júnior, Adílio e Nunes sabiam que jogavam, em primeiro lugar, para aqueles que tinham sacrificado o dinheiro do almoço para estar ali. Era uma relação de lealdade absoluta. O Flamengo jogava para os Geraldinos, e os Geraldinos carregavam o Flamengo.
4. A Morte da Geral: A Elitização do Futebol
O fim da Geral foi um processo lento e doloroso, culminando na reforma para o Campeonato do Mundo de 2014. Sob o pretexto da "modernização" e do "Padrão FIFA", o cimento deu lugar a cadeiras numeradas. O bilhete popular desapareceu, dando lugar a ingressos que custam, muitas vezes, 10 ou 20 vezes mais.
A extinção da Geral não foi apenas uma mudança arquitetónica; foi uma limpeza social. O Geraldino, o adepto pobre, excêntrico e apaixonado, foi expulso do estádio. Ele não tem dinheiro para pagar o "Novo Maracanã". O futebol tornou-se um espetáculo de arena, mais seguro e confortável, sem dúvida, mas infinitamente menos colorido e vibrante.
5. O Legado: A Saudade de um Tempo Romântico
Hoje, a relação entre Flamengo e os Geraldinos vive na memória e nas imagens de arquivo do Canal 100. O clube cresceu, fatura milhões e monta super equipas, mas há uma ferida aberta na identidade do futebol carioca.
O Flamengo continua a ter a maior massa adepta do mundo, mas o coração pulsante, sujo e maravilhoso da Geral parou de bater. Resta-nos a saudade de um tempo em que o futebol pertencia, verdadeiramente, a todos.
Como dizem os saudosistas: "Acabaram com a Geral, mas não acabaram com o Geraldino. Ele está em casa, no bar, na favela, a torcer com a mesma paixão, mesmo que o Maracanã lhe tenha fechado a porta."