Quem entra hoje no "Novo Maracanã", com suas zonas mistas, cadeiras estofadas e ar-condicionado nos camarotes, vê uma arena de padrão europeu, só falta gringo aparecendo de sobretudo. Mas quem viveu o Maracanã de verdade sabe que, sob aquele verniz moderno, falta algo. Falta a sujeira, o grito rouco e a anarquia maravilhosa de um setor que foi extinto: a Geral.
Ali, colado ao gramado, onde hoje existem os assentos mais caros, existia o coração pulsante do futebol carioca. A história do Flamengo como "O Mais Querido" não foi forjada em camarotes de luxo; ela foi cimentada no suor dos Geraldinos.
Neste artigo, vamos abrir a ferida da saudade e relembrar a era de ouro onde o ingresso custava trocados e o povo — o verdadeiro povo — podia abraçar o time.
1. O Território Livre do Concreto
A Geral não era apenas um setor; era um ecossistema. Localizada no anel inferior, separada do campo apenas por um fosso (que muitas vezes servia de lixeira ou piscina improvisada), a Geral não tinha cadeiras. Era um plano inclinado de concreto puro.
A Democracia da Arquibancada: Por um preço simbólico, o trabalhador, o estudante e o desempregado tinham acesso ao maior espetáculo da terra. Ali, o médico e o operário se misturavam, unidos pelo aperto e pelo cheiro inconfundível de cerveja, cigarro e humanidade.
A visão do jogo? Péssima. Você via o jogo do nível da grama, perdendo a noção tática. Mas ninguém ia para a Geral para ver tática. Ia-se para sentir o jogo. A energia elétrica que subia daquele fosso assustava os adversários mais do que os gritos vindos das arquibancadas superiores.
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2. O Geraldino: O Folclore em Pessoa
O "Geraldino" era uma figura sociológica que não existe mais. Como a visão do campo era limitada, ele transformava a arquibancada em palco. Foi ali que nasceram as lendas do folclore esportivo.
Não era raro ver torcedores vestidos de noiva, de Chapolin Colorado ou com roupas feitas inteiramente de jornal. Havia o clássico "Homem do Rádio", aquele senhor que colava um rádio de pilha gigante no ouvido e narrava os lances para quem estava em volta (já que ninguém via direito o outro lado do campo).
A Conexão com os Ídolos: Zico, Júnior e Adílio cansaram de dizer em entrevistas: eles ouviam a conversa dos geraldinos. Ao cobrar um escanteio, o Galinho ouvia pedidos, piadas e até orações de torcedores que estavam a meros metros de distância. Essa intimidade criou uma simbiose única: o Flamengo jogava para eles, e eles carregavam o Flamengo.
3. O Fim de uma Era: A Elitização Forçada
A morte da Geral foi lenta, mas o golpe final veio com a reforma para a Copa do Mundo de 2014. Sob o pretexto da "modernização" e do tal "Padrão FIFA", o concreto foi demolido para dar lugar a cadeiras numeradas.
A Crítica Necessária: A extinção da Geral não foi apenas uma mudança arquitetônica; foi uma limpeza social. O ingresso popular desapareceu, sendo substituído por bilhetes que custam 10, 20 vezes mais. O Geraldino — o torcedor pobre, excêntrico, que juntava moeda para ver o Mengão — foi sumariamente despejado.
O futebol tornou-se um produto de arena, seguro e confortável, sem dúvida. Mas tornou-se também asséptico. Perdeu a cor, perdeu a fantasia e, principalmente, perdeu a cara do Brasil.
Conclusão: O Geraldino Sobrevive (Longe do Estádio)
O Flamengo continua tendo a maior torcida do mundo e faturando milhões. Mas há uma dívida histórica impagável com a sua base popular. Acabaram com a Geral, demoliram o concreto, mas não conseguiram matar o espírito do Geraldino.
Ele ainda existe. Ele está no bar da esquina, na laje da favela, gritando com a TV com a mesma paixão de antes. A única diferença é que, hoje, o portão do Maracanã está trancado para ele. O "Novo Maracanã" é lindo, mas jamais terá a alma do "Velho Maraca".