Do Popeye ao Rei do Rio: Como o Flamengo Transformou o Racismo em seu Maior Símbolo de Poder

Fazer do limão uma limonada é para amadores. O Flamengo fez algo muito maior: pegou um "limão podre", arremessado com preconceito e ódio, e o transformou na identidade mais poderosa do futebol brasileiro.

Poucos sabem, mas até 1969, o mascote oficial do Flamengo era o Marinheiro Popeye. Sim, o personagem americano do espinafre. Embora tivesse ligação com o remo, ele não tinha alma, não tinha a cara do povo. Enquanto isso, nas arquibancadas, os rivais usavam um termo pejorativo para atacar a massa rubro-negra: "Urubu".

Não era um apelido carinhoso. Era racismo puro. Era uma tentativa elitista de associar a torcida do Flamengo — composta majoritariamente por negros e pobres — à ave que come carniça. Mas o flamenguista, com sua teimosia histórica, decidiu que não baixaria a cabeça.

Neste artigo, vamos relembrar o dia exato em que o jogo virou e o Urubu voou para a eternidade.

1. O Cenário: A Maldição do Botafogo e o Preconceito

O ano era 1969. O cenário era desolador. O Flamengo vivia um jejum incômodo contra o Botafogo: já eram quatro anos (ou 9 jogos) sem vencer o rival, que tinha um esquadrão. A torcida alvinegra, sentindo-se superior, gritava "Urubu" nas arquibancadas para humilhar.

Foi nesse caldeirão de pressão que quatro torcedores do Leme — Luiz Octávio, Romilson, Victor e Erick — tiveram uma ideia que beirava a loucura: "Se eles nos chamam de Urubu para ofender, nós vamos assumir o Urubu para vencer."

O plano era digno de cinema: ir até um lixão no Caju, capturar um urubu selvagem, embrulhá-lo numa bandeira e soltá-lo no Maracanã em dia de clássico.



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2. O Voo da Redenção (1º de Junho de 1969)

Domingo de clássico. Maracanã pulsando. O clima era de guerra. Antes dos times entrarem em campo, os quatro amigos desenrolaram a bandeira e soltaram a ave.

A Análise do Momento: Aquele segundo mudou a história cultural do Rio de Janeiro. Dizem as testemunhas que o urubu, atordoado, hesitou. Mas quando abriu as asas negras e sobrevoou o gramado com o escudo do Flamengo amarrado na pata, aconteceu um fenômeno social instantâneo.

A torcida, que durante anos se encolhia ao ouvir o xingamento, teve um estalo de orgulho. O grito que era ofensa virou grito de guerra. O estádio explodiu em um uníssono: "É URUBU! É URUBU!". Ali, o racismo perdeu a força diante da autoafirmação.

3. A Caneta de Henfil e o Fim da "Urucubaca"

O destino, como sempre, é rubro-negro. O urubu voou e o time voou junto. Naquele dia, o Flamengo quebrou o tabu e venceu o Botafogo por 2 a 1. A maldição foi embora nas asas do novo mascote.

Mas a consolidação veio no papel. O genial cartunista Henfil, rubro-negro fanático, percebeu a genialidade do movimento e começou a desenhar o Urubu nas charges do Jornal dos Sports. Henfil humanizou o bicho, deu a ele a malandragem, a ironia e a raça do torcedor. O Popeye foi aposentado sem deixar saudades, e o Urubu assumiu o trono.

Conclusão: O Escudo da Resistência

Hoje, quando você veste uma camisa com o Urubu, você não está apenas usando um mascote animal. Você está carregando um símbolo de resistência social. O Urubu é a prova de que o Flamengo não aceita desaforo.

Os rivais tentaram nos humilhar usando nossa cor e nossa origem popular contra nós, mas acabaram nos dando nosso maior amuleto. Eles nos chamaram de Urubu para nos diminuir; nós aceitamos e voamos alto demais para que eles pudessem nos alcançar.

E você, conhecia a história dos quatro amigos do Leme? Deixe nos comentários qual a sua charge favorita do Urubu!

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