Na galeria dos grandes nomes do Clube de Regatas do Flamengo, o Mengão Malvadão, o espaço não é reservado apenas para os atletas que brilham dentro das quatro linhas ou das quadras. Há um lugar de honra para os arquitetos, os estrategistas que transformam talento em glória. No basquete, nenhum nome ressoa com mais autoridade e reverência do que o de José Neto. A história de José Neto no Flamengo não é apenas sobre vitórias; é sobre a construção de uma hegemonia, a consolidação de um projeto e a conquista do impossível: o topo do mundo.
Se o segundo título do NBB, na temporada 2012-13, foi a "Reconquista" que lavou a alma do torcedor, ele também foi a pedra fundamental da "Era José Neto". Ele chegou ao clube em 2012 com uma missão clara e complexa: quebrar a dinastia de três anos do rival Brasília e recolocar o "Orgulho da Nação" no trono do basquete brasileiro, José Neto passa a imagem de um cara calmo, que evita alarde e exposição, daquele que trabalha duro todos os dias para vencer.
O que ele fez nos seis anos seguintes, no entanto, superou todas as expectativas. Neto não apenas cumpriu a missão inicial, mas estabeleceu um domínio tão avassalador que se tornou o padrão de excelência no esporte nacional. Esta é a história do técnico que liderou o Flamengo em sua era mais dourada.
1. A Chegada em 2012: ConstrA Missão de Quebrar a Hegemonia
Para entender o impacto de José Neto, é crucial lembrar o cenário do basquete brasileiro em meados de 2012. O Flamengo, campeão da primeira edição do NBB (2008-09), via um rival, o Brasília, dominar completamente a liga com um tricampeonato consecutivo (2010, 2011, 2012). A Nação Rubro-Negra estava impaciente e sedenta por uma resposta.
Foi nesse contexto que José Neto, vindo de um trabalho sólido na Liga Sorocabana, foi contratado para substituir o argentino Gonzalo Garcia. A aposta era em um técnico com uma filosofia defensiva rigorosa e uma capacidade notável de gestão de grupo.
O impacto foi imediato. Em sua primeira temporada (2012-13), Neto implementou seu sistema, extraiu o máximo de um elenco que mesclava a experiência de Marcelinho Machado e Olivinha com o auge técnico de Marquinhos (MVP da temporada) e a força de Caio Torres (MVP da final). O resultado foi a campanha dominante que culminou no segundo título do Flamengo no NBB, quebrando o jejum e destronando o rival. Mas para José Neto, aquilo era apenas o começo.
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2. A Construção da Dinastia: O Inédito Tetracampeonato do NBB
O que define uma dinastia não é uma única vitória, mas a capacidade de se manter no topo. E foi isso que José Neto fez com maestria. O título de 2013 não foi um ponto de chegada, mas o ponto de partida para o período de maior domínio da história do NBB.
Sob o comando de José Neto, o Flamengo conquistou um feito jamais igualado na liga: o tetracampeonato consecutivo.
NBB 5 (2012-13): A Reconquista (77 a 70 contra Uberlândia).
NBB 6 (2013-14): A Confirmação (78 a 73 contra o Paulistano).
NBB 7 (2014-15): A Hegemonia (77 a 71 contra o Bauru).
NBB 8 (2015-16): A Dinastia (placar agregado de 3 a 2 na série contra o Bauru).
Durante esses quatro anos, o Flamengo de José Neto foi a força a ser batida. O técnico demonstrou uma capacidade ímpar de adaptar seu time, gerenciar estrelas e evoluir taticamente. A "Era Neto" foi marcada por uma filosofia clara: a defesa vence campeonatos. Seus times eram conhecidos pela intensidade defensiva sufocante, o que permitia ao talentoso ataque, recheado de estrelas, jogar com mais tranquilidade.
Ele gerenciou a transição de protagonismo de Marcelinho Machado para Marquinhos e, posteriormente, soube integrar peças internacionais que mudaram o patamar da equipe, como o armador argentino Nicolás Laprovittola e o pivô americano Jerome Meyinsse.
3. 2014: O Ano Mágico que Colocou o Flamengo no Topo do Mundo
Se o tetracampeonato do NBB solidificou o domínio nacional, foi em 2014 que a "Era José Neto" atingiu seu ápice e se tornou lendária. Aquele ano representa, indiscutivelmente, a maior temporada da história do FlaBasquete.
Primeiro Passo: A Conquista da América
No primeiro semestre de 2014, o Flamengo disputou a Liga das Américas (LDA), o torneio continental equivalente à Libertadores do futebol. A campanha foi impecável. Na final, disputada no Maracanãzinho, o Flamengo bateu o Pinheiros por 85 a 78, sagrando-se campeão das Américas pela primeira vez. O título, além de sua importância continental, deu ao time de José Neto o direito de disputar o título mundial.
O Ápice: Campeão Mundial Intercontinental
Em setembro de 2014, o Rio de Janeiro sediou a Copa Intercontinental FIBA. O adversário era ninguém menos que o Maccabi Tel Aviv, de Israel, o então campeão da Euroliga (o torneio mais forte do mundo fora da NBA).
Era uma batalha de Davi contra Golias. O Maccabi era franco favorito, com um orçamento e um elenco de nível superior. A final foi disputada em dois jogos na Arena da Barra.
Jogo 1: O Maccabi venceu por 69 a 66, em um jogo duro que mostrou que o Flamengo podia competir.
Jogo 2: No dia 28 de setembro de 2014, o Flamengo de José Neto fez história. Com uma atuação tática perfeita, defesa implacável e um ataque cirúrgico, o Rubro-Negro venceu o gigante europeu por 90 a 77.
O grande herói da partida foi o argentino Nicolás Laprovittola, MVP do torneio, mas a vitória foi a coroação da mente de José Neto. Ele preparou o time de forma impecável para anular as estrelas do Maccabi e explorar seus pontos fracos. O Flamengo, pela primeira vez, era Campeão Mundial de Basquete.
4. A Filosofia de José Neto: Defesa, Coletividade e Gestão de Estrelas
O sucesso avassalador de José Neto no Flamengo não foi obra do acaso. Ele se baseou em três pilares fundamentais que definiram sua passagem pelo clube:
Defesa Intransigente: A máxima de Neto era clara: "o ataque ganha jogos, a defesa ganha campeonatos". Seus times eram obcecados pela marcação, liderando as estatísticas defensivas da liga ano após ano.
O Coletivo Acima do Indivíduo: Mesmo gerenciando alguns dos maiores talentos do basquete sul-americano (Marcelinho, Marquinhos, Laprovittola, Walter Herrmann), Neto jamais permitiu que o time se tornasse refém de um único jogador. A bola rodava, e o sistema coletivo era a principal estrela.
Gestão de Vestiário: Talvez sua maior virtude tenha sido a gestão de egos. Ele soube extrair o máximo de veteranos consagrados, dar confiança a jovens (como Gegê) e integrar estrangeiros de personalidade forte. Ele manteve um grupo recheado de estrelas focado e faminto por títulos durante seis longos anos.
5. O Fim de um Ciclo Glorioso: A Despedida em 2018
Como toda grande dinastia, a "Era José Neto" também chegou ao fim. Após o tetracampeonato do NBB em 2016, o Flamengo viu o Bauru quebrar sua sequência na temporada 2016-17. Na temporada 2017-18, o time acabou eliminado nas semifinais pelo Mogi.
Mas para minha tristeza, nada dura para sempre, após seis anos de um ciclo sem precedentes, o desgaste era natural. Em maio de 2018, o clube e o treinador anunciaram, em comum acordo, o fim da parceria. Era o fim de um ciclo necessário para ambas as partes, que buscavam novos ares e reformulações. Neto partiu para um novo desafio internacional, assumindo o comando da seleção feminina (e posteriormente masculina) do Japão.
O Legado Incontestável da "Era José Neto" no Flamengo
A passagem de José Neto no Flamengo durou seis temporadas (2012-2018) e redefiniu o patamar do clube. Ele saiu não apenas como o técnico mais vitorioso da história do FlaBasquete, mas como o arquiteto da era mais gloriosa do basquete de clubes do Brasil no século XXI.
Principais Títulos da "Era José Neto" no Flamengo:
1x Copa Intercontinental FIBA (Campeonato Mundial) (2014)
1x Liga das Américas (LDA) (2014)
4x Novo Basquete Brasil (NBB) (2012-13, 2013-14, 2014-15, 2015-16)
Múltiplos Campeonatos Cariocas (Dominando o cenário estadual)
José Neto não apenas empilhou troféus; ele estabeleceu uma cultura de vitória, profissionalismo e obsessão defensiva. Ele pegou um clube que lutava para recuperar seu espaço e o entregou como uma potência mundial, deixando um legado que seus sucessores (como Gustavo de Conti, que viria a construir sua própria história vitoriosa) puderam usar como alicerce.
No coração da Nação Rubro-Negra, o nome de José Neto está gravado na história, não apenas como um técnico, mas como o comandante da maior de todas as batalhas, aquela que terminou com o Flamengo no topo do mundo.